#1 - Energia

quinta-feira, agosto 16, 2018


      Devido a uma sugestão que recebi de uma fã do blogue e porque já o havia prometido aqui, vou falar um pouco de conceitos básicos da medicina. Vou procurar não ir muito a fundo nas explicações, acima de tudo quero que dê para ficarem com um conhecimento geral de tudo um pouco, pois na medicina esse conhecimento muitas vezes é suficiente para entender uma doença ou o funcionamento de um fármaco. Neste post vou começar pelo mais importante: o mecanismo de obtenção de energia do nosso corpo.
      Toda a gente sabe que obtemos energia a partir da glicose, ela entra nas nossas células e sofre glicólise e fosforilação oxidativa, originando ATP que contem a energia química que usamos nas células. Os açúcares de cadeia química maior são partidos de forma a darem moléculas de açúcar mais pequenas, até chegar na maioria das vezes à glicose, que é o açúcar mais pequeno e básico e é esse que pode passar através do nosso sistema digestivo para o sangue. A parede do sistema digestivo é como se fosse um coador, só passam as moléculas mais pequenas na maioria dos casos. Se os açúcares forem pequenos podem ser logo absorvidos na boca (é por esta razão que se uma pessoa desmaiar por pouco açúcar no sangue deve-se dar açúcares destes, como o açúcar branco de cozinha, a sacarose), no entanto, se forem de cadeias longas, vão ser parcialmente digeridos pela saliva, mas principalmente pelas enzimas pancreáticas e, finalmente, absorvidos no intestino.
      No intestino, há um sistema de veias, o sistema Porta, que leva tudo o que é absorvido directamente ao fígado, o que faz todo o sentido porque é o fígado que purifica muitas substâncias que seriam tóxicas se fossem para outros locais do corpo como o cérebro. É aqui que são metabolizados e alterados muitos medicamentos para depois fazerem efeito no resto do corpo.
       
      Alguma da glicose, chegando aqui, entra para dentro das células do fígado sem ser necessária insulina. Dentro dele, a glicose pode tomar vários caminhos dependendo se há muita no sangue ou pouca. Se houver muita glicémia (glicose no sangue) o fígado absorve mais glicose, normalizando, assim, a glicémia, e converte-a em glicogénio, que é uma mega molécula de açúcar que consiste em muitas moléculas de glicose agregadas e que podem ser rapidamente desfeitas e repostas no sangue em caso de hipoglicémia. Ao fim de algum tempo em jejum ou de um curto exercício físico, o glicogénio esgota-se e estamos em hipoglicémia, e temos outros mecanismos de repor o açúcar no sangue, os da neoglicogénese. Estes mecanismos são vários, mas no fígado é maioritariamente a formação de corpos cetónicos, uma substancia feita a partir de ácidos gordos que é ligeiramente tóxica para o cérebro, mas que permite aguentar o jejum a partir de 24h sem comer.
      O glicogénio é apenas uma reserva pequena mas de prontidão que é rapidamente utilizado. O verdadeiro reservatório são as nossas células de gordura. Essas células armazenam os açúcares na forma de gordura, o que é de extrema importância, porque se fossem mantidos como açúcares precisaríamos de 7x o nosso volume corporal para guardar a energia que guardamos. Em hipoglicémia, também há mobilização de energia vinda daqui, não é tão rápida a ser mobilizada como o glicogénio, mas é decididamente mais célebre que os corpos cetónicos…é uma energia mais “suja” que a glicose pois cria mais resíduos tóxicos, mas em termos energéticos é mais eficiente, sendo por isso que o coração funciona quase só à base de gorduras.
      Os açúcares ainda têm outros dois papéis fulcrais no nosso organismo: originar ribose e NADPH através da via das pentoses. A via em si não tem muita importância para o que estamos a falar agora, mas a ribose serve de pentose na formação dos nucleótidos do DNA e RNA e o NADPH tem um poder redutor, “limpando” o organismo de substancias tóxicas oxidantes, em suma é um antioxidante muito importante e essencial.
      Por fim, é impossível falar da componente energética e não falar da insulina. A insulina é a hormona produzida no pâncreas que faz com que a maioria das células do corpo deixem a glicose entrar para dentro delas, ela é estritamente regulada e, se houver hiperglicémia, ela aumenta; o oposto se dá em hipoglicémia. Se a insulina estiver alta, o açúcar entra nas células e é armazenado sob a forma de gordura; se estiver baixa, há a activação da neoglicogénese a fim de criar mais açúcar e evitar que as células morram, a começar pelas que têm mais necessidades energéticas, como os neurónios. De facto, existem células no nosso tubo digestivo que “sentem” o açúcar, e se elas forem activadas libertam substâncias que promovem o aumento da insulina, ou seja, isto está tão bem regulado que a insulina começa a ser libertada antes dos níveis de açúcar subirem para tentar que haja o máximo controlo. Insulina a menos dá diabetes pois há hiperglicemia; insulina a mais faz com que haja pouco açúcar no sangue e pode levar a desmaios e até mesmo à morte, pois as células do cérebro precisam constantemente de receber energia e assim não vai haver glicose disponível para elas, pois já foi consumida e armazenada em células gordas. É por este motivo que os insulinodependentes depois de se injectarem com insulina devem imediatamente comer.
normal
glicose ->↑ insulina ->acumulação de glicose do tecido adiposo -> glicose normalizada
glicose ->↓insulina ->libertação de glicose do tecido adiposo -> glicose normalizada
doença
↑↑glicose -> insulina insuficiente ->↑↑glicose = diabetes
↓↓glicose -> baixa da insulina insuficiente -> ↓↓glicose = desmaios (no limite morte)

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