#1 - Energia
Devido a uma sugestão que recebi de uma
fã do blogue e porque já o havia prometido aqui, vou falar um pouco de conceitos
básicos da medicina. Vou procurar não ir muito a fundo nas explicações, acima
de tudo quero que dê para ficarem com um conhecimento geral de tudo um pouco,
pois na medicina esse conhecimento muitas vezes é suficiente para entender uma
doença ou o funcionamento de um fármaco. Neste post vou começar pelo mais importante: o mecanismo de obtenção de
energia do nosso corpo.
Toda a gente sabe que obtemos energia a
partir da glicose, ela entra nas nossas células e sofre glicólise e
fosforilação oxidativa, originando ATP que contem a energia química que usamos
nas células. Os açúcares de cadeia química maior são partidos de forma a darem
moléculas de açúcar mais pequenas, até chegar na maioria das vezes à glicose, que
é o açúcar mais pequeno e básico e é esse que pode passar através do nosso
sistema digestivo para o sangue. A parede do sistema digestivo é como se fosse
um coador, só passam as moléculas mais pequenas na maioria dos casos. Se os
açúcares forem pequenos podem ser logo absorvidos na boca (é por esta razão que
se uma pessoa desmaiar por pouco açúcar no sangue deve-se dar açúcares destes,
como o açúcar branco de cozinha, a sacarose), no entanto, se forem de cadeias
longas, vão ser parcialmente digeridos pela saliva, mas principalmente pelas
enzimas pancreáticas e, finalmente, absorvidos no intestino.
No intestino, há um sistema de veias, o
sistema Porta, que leva tudo o que é absorvido directamente ao fígado, o que
faz todo o sentido porque é o fígado que purifica muitas substâncias que seriam tóxicas se fossem para outros locais do corpo como o cérebro. É aqui que são
metabolizados e alterados muitos medicamentos para depois fazerem efeito no
resto do corpo.
Alguma da glicose, chegando aqui, entra
para dentro das células do fígado sem ser necessária insulina. Dentro dele, a
glicose pode tomar vários caminhos dependendo se há muita no sangue ou pouca.
Se houver muita glicémia (glicose no sangue) o fígado absorve mais glicose,
normalizando, assim, a glicémia, e converte-a em glicogénio, que é uma mega
molécula de açúcar que consiste em muitas moléculas de glicose agregadas e que
podem ser rapidamente desfeitas e repostas no sangue em caso de hipoglicémia. Ao
fim de algum tempo em jejum ou de um curto exercício físico, o glicogénio
esgota-se e estamos em hipoglicémia, e temos outros mecanismos de repor o
açúcar no sangue, os da neoglicogénese. Estes mecanismos são vários, mas no
fígado é maioritariamente a formação de corpos cetónicos, uma substancia feita
a partir de ácidos gordos que é ligeiramente tóxica para o cérebro, mas que
permite aguentar o jejum a partir de 24h sem comer.
O glicogénio é apenas uma reserva pequena
mas de prontidão que é rapidamente utilizado. O verdadeiro reservatório são as
nossas células de gordura. Essas células armazenam os açúcares na forma de
gordura, o que é de extrema importância, porque se fossem mantidos como
açúcares precisaríamos de 7x o nosso volume corporal para guardar a energia que
guardamos. Em hipoglicémia, também há mobilização de energia vinda daqui, não é
tão rápida a ser mobilizada como o glicogénio, mas é decididamente mais célebre
que os corpos cetónicos…é uma energia mais “suja” que a glicose pois cria mais
resíduos tóxicos, mas em termos energéticos é mais eficiente, sendo por isso
que o coração funciona quase só à base de gorduras.
Os açúcares ainda têm outros dois papéis
fulcrais no nosso organismo: originar ribose e NADPH através da via das
pentoses. A via em si não tem muita importância para o que estamos a falar agora, mas a
ribose serve de pentose na formação dos nucleótidos do DNA e RNA e o NADPH tem
um poder redutor, “limpando” o organismo de substancias tóxicas oxidantes, em
suma é um antioxidante muito importante e essencial.
Por fim, é impossível falar da componente
energética e não falar da insulina. A insulina é a hormona produzida no
pâncreas que faz com que a maioria das células do corpo deixem a glicose entrar
para dentro delas, ela é estritamente regulada e, se houver hiperglicémia, ela
aumenta; o oposto se dá em hipoglicémia. Se a insulina estiver alta, o açúcar
entra nas células e é armazenado sob a forma de gordura; se estiver baixa, há a
activação da neoglicogénese a fim de criar mais açúcar e evitar que as células morram,
a começar pelas que têm mais necessidades energéticas, como os neurónios. De
facto, existem células no nosso tubo digestivo que “sentem” o açúcar, e se elas
forem activadas libertam substâncias que promovem o aumento da insulina, ou
seja, isto está tão bem regulado que a insulina começa a ser libertada antes
dos níveis de açúcar subirem para tentar que haja o máximo controlo. Insulina a
menos dá diabetes pois há hiperglicemia; insulina a mais faz com que haja pouco
açúcar no sangue e pode levar a desmaios e até mesmo à morte, pois as células do
cérebro precisam constantemente de receber energia e assim não vai haver
glicose disponível para elas, pois já foi consumida e armazenada em células
gordas. É por este motivo que os insulinodependentes depois de se injectarem
com insulina devem imediatamente comer.
normal
↑glicose ->↑
insulina ->acumulação de glicose do tecido adiposo -> glicose
normalizada
↓glicose ->↓insulina
->libertação de glicose do tecido adiposo -> glicose normalizada
doença
↑↑glicose -> insulina
insuficiente ->↑↑glicose = diabetes
↓↓glicose -> baixa da insulina
insuficiente -> ↓↓glicose = desmaios (no limite
morte)


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